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domingo
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Debaixo do hábito levo um conjunto escarlate com aplicações de renda. Na pele o desejo e o aroma de um perfume.

Bato ao de leve na porta que nos separa. Abres-ma. Entro.

Procuras-me a boca. Dou-ta. As mãos - qual malabaristas de circo - entrelaçam-se em complicados esquemas e adentram-se nas vestes, apoderando-se da pele alheia. Pegas-me ao colo e deitas-me na cama. Deixo-me ficar. Cobiças-me com esse olhar matreiro de menino. Continuo deitada. As mãos bailam-me pelo corpo, provocando-te. Em silêncio deitas-te ao meu lado e, vagarosamente, os teus lábios passeiam por mim. As tuas mãos acompanham agora as minhas num ritual de sedução. Sinto o teu corpo másculo subindo para o meu. O teu desejo é duro, forte, grosso e a tua boca come-me a carne como se a fome de comer viesse de há muitos séculos. Viro-me para ti e chamo-te ao prazer entreabrindo as pernas. Vens e eu deixo-me ir. Investes. Investes. Investes. Gemo. Gemes.

No chão, lado a lado, jazem juntos o hábito e a batina.



Na paz do Senhor
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quinta-feira
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Depois do encontro frustrado pela Madre Superiora, a noviça, tentando acalmar os ânimos, ocupa-se na leitura de uma brochura de arte antiga. Ainda que na maioria das imagens mal foque a vista porque os seus apetites são outros, o olhar prende-se-lhe numa reprodução de Leda e o Cisne e dá por si protagonizando o que, atenta e libidinosamente, observa.

Leda era uma jovem e bela noviça que em certas noites de lua cheia se escapulia do convento para se refrescar no rio. Retirava o hábito e banhava-se nas serenas águas, que deslizantes lhe passeavam pelo corpo nu, revisitando cada esconderijo.

Certa vez, Zeus – que andava neste mundo metamorfoseado em Padre Confessor - reparando na bela noviça, esconde-se para contemplá-la de longe. Preso aos seus encantos, mas temendo assustá-la com a sua gloriosa e potente figura, Zeus - na tentativa de cortejar a jovem - mais uma vez se transforma, convertendo-se num belo cisne.

Ao ver o esplendoroso animal a aproximar-se, Leda senta-se e começa a observá-lo. Diante dos seus olhos, o maravilhoso espécime empina-se e começa a mover as suas belas plumas com grande excitação, movimentando o corpo numa dança frenética que evidencia o seu olímpico desejo. De súbito, começa a acariciá-la provocando-lhe leves arrepios à passagem das suas plumas pela sua alva pele. Com suaves bicadas, percorre-lhe o corpo, procurando-lhe os recantos mais íntimos e abrindo as asas, escorrega por ela.

A doce noviça não se move, fascinada e amortecida pela divina sedução e, nem acreditando, afasta os joelhos devagar, abrindo–se ao cisne desabrido que, lentamente, se adentra nela.

E assim se amaram.
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sábado


Na cozinha do convento a noviça, sob a vigilância das freiras responsáveis por essas artes, aprende os segredos das delícias conventuais.


Entretida entre charutos, suspiros, pitos, marmeladas, barrigas e papinhos de freira, ais, esquecidos (ou talvez não), bons bocados, orelhas de abade, viúvas doces, velharocos e até sopapos do convento misturados com as delícias do Frei João, a noviça só se apercebe da presença do hortelão quando ele lhe toca no braço e lhe faz um sinal para que a acompanhe.

- O Sr. Padre Confessor pediu-me que lhe entregasse isto - diz-lhe, passando-lhe para as mãos um pequeno embrulho.

A noviça esboçou um sorriso de agradecimento e afastou-se, procurando um recanto mais escondido para se descuriosar.

Com cuidado, desatou o rubro laço e retirou o papel que envolvia o embrulho. Dentro estava um livro de horas. Com a ponta dos dedos acariciou-lhe a capa e, aproximando-se um pouco mais, tentou sorver-lhe os últimos resquícios do cheiro das mãos que antes o tinham manuseado.

Abre-o e, acomodado entre duas pétalas de rosa escarlate, estava um bilhete, que rezava assim:

Se pudesses sentir o que na minha mente desejo, saberias que quero que me aprisiones com a tua língua húmida e que a tua saliva vista a minha pele nua. Saberias que quero embriagar-me com o aroma da tua pele e que aspiro ouvir de ti, em voz gritada, que és minha.

Vem viver, morrendo nos meus braços. Espero-te à meia noite no meu quarto.


Com o bilhete lambendo-lhe os seios e aguçados todos os sentidos, a noviça percorre a vontade que os separa a passos largos.





Graças a Deus!




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segunda-feira

Após as vespertinas, seguiu-se um jantar culminado de olhares incandescentes e perturbadores. O corpo, mordendo-me de desejo, obriga-me a levantar da mesa. Ao percorrer a sala, dirigindo-me para a porta, sinto o olhar dele cravado em mim. Não olho para trás.


No jardim, encontro um lugar recatado e, procurando refrescar o calor que ainda me tortura, deito-me na terra húmida. Sorvo-lhe os cheiros e, acariciando-a com a ponta dos dedos, sinto-lhe a textura fresca e sadia.


No céu adivinha-se uma lua que há-de ser cheia. Cheia de encantos, auspicio. E os meus pensamentos retornam àqueles olhos que me deixam fora de mim. Dou por mim tocando-me. Insana - condeno-me em pensamentos - e cruzo as pernas com força, tentando afastar-me a fome.


Repentinamente, oiço o estalar de um tronco e pressinto que alguém me observa.




Louvado seja o Senhor
!




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sábado


In nomine dei

Vem comigo, desejo apresentar-te ao novo capelão – diz-me a madre superiora. Sigo-a curiosa porque a notícia do novo confessor correu célere no convento.

- Noviça, este é o capelão que te servirá e a quem deverás confessar os teus mais ínfimos pecados, para regozijo e descanso da tua alma.

Sim, madre - assinto, submissa.

 

Meus olhos percorrem o rosto moreno, emoldurado por uns cabelos longos e negros. A barba rala parece existir para o simples pressuposto de ser roçada e uns olhos, uns olhos tão belos, sedutores e poderosos que suspeito conseguirem ver dentro de mim. Debaixo da batina, adivinha-se um corpo viçoso e perfeito.

Olha-me… e os seus olhos ardem quando se encontram com os meus e um calor intenso apodera-se de mim.

- Muito prazer, cara noviça.

Cuida a distância com um aperto de mãos. Mas sentir a sua mão na minha, no meu tacto, pesou-me mais do que um beijo na face. Este, seguramente, passaria mais rápido e não me demoraria tanto nos pensamentos.

- Disponha do que lhe aprouver…

- Assim farei, Sr. Padre, assim farei, prometo.

De relance olho para trás e vejo que também me observa. Esboço um sorriso. Retribui.

Vamos rezar muito juntos, penso.







A sensualidade é como o perfume. Duas gotas, a perfeição. Um frasco inteiro, uma overdose de enjoo.

ADVERTÊNCIAS:

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2. em nenhum momento se pretendeu ferir susceptibilidades relativamente a credos ou religiões.



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